ECONOMIA - Informalidade fomenta mercado de trabalho

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Publicado em 16 de agosto de 2019

O aumento da informalidade e a queda no rendimento médio real são os responsáveis pela melhora no índice de desemprego. Com a intenção de contratação menor, a expectativa é de efeitos mais significativos no emprego só cheguem no médio prazo.

Os últimos dados divulgados ontem na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a taxa de desocupação ficou em 12% no segundo trimestre, queda de 0,4 ponto percentual (p.p.) em relação ao mesmo intervalo de 2018 (12,4%).

De acordo com o gerente de análise de investimentos da Mapfre Investimentos, Luis Afonso Lima, porém, o número de pessoas empregadas sem carteira de trabalho assinada, porém, continua a ser um ponto de preocupação.

“O que está puxando para frente a melhora no indicador de desemprego é exatamente o aumento de trabalho sem carteira assinada. É uma recuperação de baixa qualidade e que também não se reflete em renda”, avalia o executivo.

Só os trabalhadores do setor privado sem carteira assinada, por exemplo, avançaram 5,2% no segundo trimestre ante igual período de 2018, de 10,935 milhões para 11,5 milhões. Aumento semelhante foi visto no total de empregados por conta própria, que subiram de 22,985 milhões para 24,141 milhões (+5%).

Já em termos de rendimento, por outro lado, ainda que a pesquisa aponte um crescimento nominal na comparação anual (de R$ 2.200 para R$ 2.290), a estimativa real (valor que desconta a inflação) demonstrou uma queda, de R$ 2.295 para R$ 2.290.

“É diferente do que acontecia. Agora, enquanto as taxas de desemprego, capacitação e jornada começam a jogar a favor da queda do desemprego, o salário passa a jogar contra.

E nesse sentido, esse aumento nos trabalhos sem carteira assinada também pode ajudar a explicar um mercado mais flexível à informalidade”, comenta o diretor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Social, o professor Marcelo Neri.

No segundo trimestre, o percentual de pessoas desalentadas foi de 4,4%, mantendo o recorde da série histórica da Pnad. Ao mesmo tempo, o percentual de empregados com carteira assinada no setor privado foi de 74,3%, enquanto o de trabalhadores sem a carteira assinada foi de 25,7%.

O percentual da população ocupada trabalhando por contra própria, por sua vez, foi de 25,9%. No que diz respeito ao tempo de procura, um total de 3,3 milhões de brasileiros (26,2%) afirmaram buscar emprego há mais de dois anos.

Regionalmente, as maiores taxas de ocupação foram observadas na Bahia (17,3%), Amapá (16,9%) e Pernambuco (16,0%), enquanto os menores percentuais foram vistos em Santa Catarina (6,0%), Rondônia (6,7%) e também no Rio Grande do Sul (8,2%).

Desigualdade

Outro ponto trazido pela Pnad foi a desocupação entre pretos e pardos. Enquanto o índice ficou em 9,5% para brancos abaixo da média nacional, pretos e pardos atingiram 14,5% e 14%, respectivamente.

Uma pesquisa da FGV, também divulgada ontem, corrobora com esses números: a desigualdade da concentração de renda do País aumenta há 17 trimestres consecutivos. Segundo o levantamento, a renda do trabalho da metade mais pobre da população caiu 18,1% em termos reais.

Já a renda do 1% mais rico subiu 9,5% nesse período. Vale lembrar que, segundo o IBGE, os negros respondem por 78% da população mais pobre do País.

Segundo Neri, porém, a tendência sobre o índice de desigualdade começa a apontar para uma melhora. “A economia ainda não está pujante, mas mostra sinais de migrar para um equilíbrio. Mas é preciso ter em mente que muito do que pode trazer a retomada é de médio e longo prazo”, completa o professor.

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